Retenção de Placenta

Já ouviu falar em Retenção de Placenta? Uma falha na expulsão dos anexos fetais pelo útero, após o parto. Fique por dentro de alguns fatores de predisposição, formas de controle e tratamento!

Introdução

Tratando-se de bovinos, em condições normais, o processo de nascimento envolve a dilatação do canal materno, saída do feto e por fim, a expulsão dos anexos fetais, sendo comum que tal expulsão ocorra em duas a oito horas pós-parto (EDUCAPOINT, 2019). Todavia, podem surgir intercorrências como, a retenção de placenta. Essa retenção consiste na permanência, total ou parcial dos anexos fetais, mais precisamente da placenta, no útero após o parto, por um período acima de 12 horas (geralmente entre 12 e 24 horas). Em grande parte dos casos, representa uma manifestação clínica de uma doença sistêmica. É importante destacar que sua incidência/prevalência é mais comum em bovinos, sendo o gado leiteiro mais acometido do que o gado de corte (DAYRELL, 1991).

Como ocorre?

A placenta bovina compreende o endométrio uterino e a parte fetal (ambas íntegras), ligadas de forma bem firme na região conhecida como carúncula (parte materna modificada no endométrio) e na região dos cotilédones (regiões da placenta que formam dígitos). Essa junção é chamada de placentoma. Nesse contexto, ao final da gestação há um aumento no nível de cortisol fetal, o que faz com que células responsáveis por secretar prostaglandina migrem da parte fetal da placenta, para a parte materna da placenta.

Nesse mesmo período, de final de gestação, a partir do momento em que a progesterona está em alta, a presença da prostaglandina causa a regressão do corpo lúteo e consequentemente a diminuição da concentração de progesterona plasmática. Por fim, há aumento da concentração de estrógeno, daí surgem as contrações uterinas. Em seguida, acontece a diminuição da progesterona e aumento do estrógeno. Posteriormente, alguns antígenos começam a se manifestar nas criptas placentárias, o que faz com que o sistema imunológico encare a placenta como um corpo estranho, iniciando a rejeição. Nesse momento, os níveis de cortisol (hormônio que atua na resposta do organismo ao estresse) precisam estar normais para que tudo ocorra bem. Por outro lado, quando há aumento nesses níveis de cortisol, ocorre comprometimento da resposta imune da vaca, afetando assim a expulsão da placenta (EDUCAPOINT, 2019).

Fatores Predisponentes / Causas

As causas da Retenção de Placenta não são totalmente esclarecidas. Porém segundo alguns autores, ela está associada a quaisquer fatores que comprometam o desprendimento nos placentomas ou que provocam a inércia uterina (ARTHUR, 1969; GRUNERT et al., 1976). Nesse contexto, maiores riscos de ocorrência podem ser relacionados ao estresse intensivo e aos fatores nutricionais, podendo ser destacados alguns problemas de manejo (secagem tardia das vacas, nutrição não adequada, deficiência de nutrientes e vitaminas, transporte de animais em período final de gestação, confinamento por períodos prolongados e outros). Fatores hereditários e falta de higiene próxima do parto, também são hipóteses de predisposição (ERB et al. 1958; ROBERTS, 1971).

Sinais Clínicos

O sinal clínico mais comum é a presença de envoltórios fetais pendentes na vulva, todavia em alguns casos esses envoltórios não são visíveis durante o exame clínico, pois permanecem dentro do útero (PRESTES; ALGVARENGA, 2006). Nos bovinos podem ocorrer cólicas, frequentes no início, depois recorrentes e em seguida pode haver putrefação pela vulva, com resquícios de anexos (cor acinzentada-amarelada). A retenção de placenta pode evoluir para metrite séptica, depressão, hipertermia e queda na produção (HORTA, 1994).

Controle / Prevenção

Para controle é preciso que haja atenção quanto aos fatores predisponentes. Desta maneira alguns pontos importantes são: o cuidado com a nutrição animal, cuidados especiais com vacas em período de transição, evitando estresse, atenção quanto ao local do parto (para evitar contaminação), necessitando de área seca, limpa e com sombra (EDUCAPOINT, 2019). Além disso, é muito importante que as possíveis causas sejam controladas para que se evite que outros animais passem pelo problema.

Tratamento

Em vacas com retenção o recomendado é que seja oferecido suporte ao organismo. Os pontos mais importantes são: higienização de restos placentários, antibioticoterapia sistêmica para combater infecções bacterianas, aplicação de soro glicosado e cálcio. Além disso, o controle da dor e da febre é muito importante, afinal o animal precisa ter força para se alimentar. Vale destacar que não se recomenda a remoção manual da placenta, visto que podem surgir hemorragias, septicemia, ruptura e retardo na involução uterina, sendo considerada a possibilidade apenas em casos específicos (onde os anexos estejam soltos, após verificação via exame). Além disso, não é recomendada a lavagem uterina uma vez que há maior acúmulo de líquido no órgão e consequentemente maior dificuldade de sua remoção, além do útero estar bem sensível e friável, podendo ocorrer lesões graves e/ou letais.

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No contexto da Retenção de Placenta alguns medicamentos JA são recomendados, sendo eles:

Turbo Cálcio: Repositor de minerais e suplemento energético. É uma solução injetável, pronta para uso, contendo Cálcio, Fósforo, Magnésio, Vitamina B1, Sorbitol e Metionina. Seu uso é recomendado para que haja suplementação de minerais, aminoácidos e energia nos animais com retenção.

 

Lactocina ou Cioton: A Lactocina corresponde a uma Ocitocina sintética. Seu uso é recomendado para auxiliar na expulsão de placentas, casos de atonia uterina e hemorragia pós-parto, em vacas. É importante que a aplicação seja feita sempre no período da manhã e nunca ao final do dia, para que o animal seja monitorado em seguida. Vale destacar que, a ocitocina é recomendada somente até 24 horas após o parto. Outra opção, é utilizar o Cioton (ao invés da Lactocina), um análogo sintético da Prostaglandina, que contribuirá para a eliminação do resíduo placentário e favorecerá a ação do antimicrobiano.

 

Diclotril: Consiste em um antimicrobiano de amplo espectro, à base de Enrofloxacina, associado a um potente anti-inflamatório. Possui ação analgésica, anti-inflamatória e antipirética, o que auxilia no controle da infecção, promovendo maior conforto e bem-estar ao animal. 

 

Texto:

Juliana Ferreira Melo

Médica Veterinária / Jornalista

 

 

Referências

ARTHUR, G. H. Retention of the afterbirth in cattle: a review and comentary. Vet. Annual, v. 18, p. 26- 36, 1979.

DAYRELL, Milton de Souza. Efeito da deficiência de alguns minerais na reprodução de bovinos. Embrapa, 1991. 18 p. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/582574/1/2044.pdf. Acesso em: 21 fev. 2022. 

EDUCAPOINT. Retenção de Placenta em vacas: O que é e como proceder. 2019. Disponível em: https://www.educapoint.com.br/blog/pecuaria-leite/retencao-placenta-vacas-o-que-e/#:~:text=A%20reten%C3%A7%C3%A3o%20de%20placenta%20%C3%A9,12%20horas%20ap%C3%B3s%20o%20parto. Acesso em: 21 fev. 2022. 

ERB, R.E.; HINZE, P.M.; GILDAO, E.M.; MORRISON, R.A. Retained fetal membranes: The effect on prolificacy of dairy cattle. Journal American Veterinary Association, v. 133, p., 485-496, 1958.

GRUNERT, E.; SCHULTZ, L.; AHLERS, D. Placenta problems with induced labor in Annales Recbercbes Vétérinaires, v. 7, p. 135-138, 1976.

 HORTA, A.E.M. Fisiologia do Puerpério na Vaca. 8ª Jornadas Internacionales de Reproducción Animal, AERA, Santander, p. 181-192, 1994

PRESTES, N. C., ALVARENGA, F. C. L. Obstetrícia Veterinária. 4ed. Rio de Janeiro: Guanabara, p. 123 – 125, 2006.

ROBERTS, S.J. Veterinary obstetrics and genital diseases. Ann Arbor: Edwards Brothers, 1971. 776p.

 

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