Características de Importância Econômica para produção leiteira 

Na pecuária de leite, a finalidade da exploração zootécnica e a moeda de troca com a indústria é, sem dúvida, a produção de leite, no entanto, ao se estabelecer os objetivos de seleção do rebanho, é importante considerar os fatores que estão envolvidos no processo e outras características que possam interferir na eficiência econômica do sistema, como as produções de gordura e de proteína.

Decidir sobre tais objetivos, sobre as características que serão consideradas e a ênfase a ser atribuída a cada uma delas não é tarefa simples. Tais decisões determinam a direção e o grau das respostas à seleção, os seus custos unitários e a economicidade dos resultados obtidos.

O número de características envolvidas no programa de melhoramento deve ser cuidadosamente considerado, pelo fato de que, se muitas forem consideradas, o progresso genético advindo da seleção para cada uma delas será reduzido em comparação à seleção realizada em uma única característica.

Assim, a seleção deve ser direcionada para características de real importância e que causam impactos econômicos. Por esta razão, deve-se escolher apenas aquelas que afetam diretamente a lactação, a vida produtiva e a eficiência de produção do gado leiteiro.

A ênfase a ser atribuída a cada característica depende dos seguintes fatores:

  • Acurácia de predição dos métodos de avaliação: associações entre as características e identificação segura dos animais geneticamente superiores;
  • Herdabilidade da característica: a qual influencia diretamente o progresso genético;
  • Importância econômica: ligada ao retorno financeiro da evolução genética obtida sobre o sistema de produção;

Características Produtivas do gado de leite 

A produção de leite é a característica de maior valor econômico, no Brasil, razão pela qual normalmente é a primeira a ser considerada em um programa de seleção. O ideal é a vaca ter alta produção na lactação e um novo parto a cada ano. Consequentemente, este animal terá uma nova lactação em todos os anos, daí a razão para se ter estabelecido o padrão de produção em 305 dias, com um período de descanso (período seco) da glândula mamária de cerca de 60 dias antes do parto subsequente.

Embora haja tendência de redução nas percentagens de gordura e de proteína, há aumento na produção total destes componentes com a elevação da produção de leite. No Brasil, os teores de gordura e de proteína em alguns casos podem influenciar o preço pago ao produtor.

De modo geral, em função da facilidade na determinação do teor de gordura, vários países iniciaram a remuneração por esse componente, além do fato da manteiga ser um dos principais produtos. Todavia, atualmente, o mercado de proteína tem recebido uma atenção maior em função da crescente demanda por queijo e produtos de nutrição esportiva.

Canadá, Dinamarca e Holanda, por exemplo, remuneram os produtores de acordo com o teor de proteína, principalmente porque, nesses países, grande parte do leite produzido se destina à fabricação de queijos. No Brasil, de modo geral, a indústria proporciona pequenas bonificações ou penaliza pelos teores de gordura.

Para outros constituintes do leite (sólidos totais e lactose) não existe, de modo geral, incentivo econômico que justifique a consideração destas características em programas de seleção. Todavia, países como a Espanha remuneram os produtores de acordo com o extrato seco magro.

As produções de leite, de gordura e de proteína apresentam, em média, herdabilidade (h2) entre 0,2 e 0,3, enquanto a h2 para os percentuais de gordura e de proteína estão entre 0,4 e 0,7. O progresso genético destas características é obtido de maneira mais rápida quando comparado com a seleção para as características reprodutivas, pelo fato das estimativas de herdabilidade variarem de médias a altas. Com isso podemos dizer que o produtor teria maior facilidade em obter melhorias nas percentagens de gordura e de proteína e produção de leite com o uso de genética adequada.

No entanto, a seleção somente para a produção de leite atende uma parte do processo. Para o produtor, é essencial que seu rebanho obtenha alta produção com animais eficientes e rentáveis. Portanto, outras características devem estar envolvidas nos objetivos de seleção, como é o caso da vida produtiva, das características reprodutivas, adaptativas e de conformação.

A vida produtiva (PL, do inglês Productive Life) representa o tempo de produção de um animal em um rebanho antes de seu descarte (voluntário ou involuntário), abate ou morte (Alta Genetics, 2021). Normalmente esta característica é medida no número de meses que a fêmea permanecerá em produção no rebanho, ou seja, quantos meses a mais em relação as suas contemporâneas, uma vaca permanecerá no rebanho em produção.

A vida produtiva, a DPR e SCS (descritas adiante) são características relacionadas com a saúde do animal e consequentemente com sua permanência no rebanho, pois contribuem para a produção de animais que viverão períodos mais longos de vida produtiva, elevando o rendimento das fêmeas e uma menor necessidade de descarte e reposição de rebanho, além de menores gastos com saúde, reprodução e criação.

Características Reprodutivas

A reprodução é componente-chave para a sobrevivência e a evolução das espécies, sendo um dos fatores mais importantes a ser considerado numa exploração leiteira, uma vez que a vaca inicia uma lactação com o parto. Para maximizar a produção, diversos programas de melhoramento têm dado atenção as características reprodutivas mensuradas nas fêmeas.

Dentre elas, a idade ao primeiro parto (IPP) é uma característica de grande importância. Ela está relacionada ao início da vida reprodutiva e é a mais estudada como expressão de precocidade sexual (Coutinho e Rosário, 2010; Fortes et al., 2011). Assim, a IPP precoce aumenta a produção vitalícia das fêmeas e colabora no aumento da intensidade seletiva refletindo nos ganhos genéticos. A IPP marca o início da vida produtiva de uma fêmea bovina e é uma característica de fácil mensuração, cuja obtenção não implica em custos adicionais para o sistema.

Outra característica de grande importância é o intervalo de partos (IDP), que reflete a eficiência reprodutiva das matrizes em um plantel. Portanto, quanto menor for o IDP, maior poderá ser a vida produtiva de uma vaca.

Além da IPP e IDP, a facilidade de parto também apresenta grande importância e deve ser considerada no momento da escolha do reprodutor a ser acasalado com as vacas. A facilidade de parto do touro (SCE, do inglês Sire Calving Easy) é uma estimativa da porcentagem de nascimentos com mais severas complicações em novilhas de primeiro parto. Calcula-se o percentual de partos com assistência nas novilhas (nulíparas) que são inseminadas com este touro. As PTAs são expressas como o percentual de partos realmente mais difíceis em novilhas, porque a distocia (partos problemáticos que necessitam de assistência humana) é mais frequente em animais de primeira cria. Portanto, um touro com facilidade de parto acima da média da população contribuirá com nascimentos mais fáceis do que um touro com facilidade de parto abaixo da média.

Já a facilidade de parto em filhas (DCE, do inglês Daugther Calving Easy), medida pela influência do pai no parto de suas filhas, representa a combinação da habilidade de uma primípara parir sem severas complicações. Portanto, estima o percentual de partos distócicos em filhas de primeiro parto deste touro, inseminadas com touros médios. Para ambas as características (SCE e DCE), a média para a população é de 2,2% para a raça Holandesa e de 3,0 para a raça Pardo-Suiça (CDCB, Agosto 2020).

Outra característica que requer a atenção dos produtores de leite é a taxa de prenhez das filhas (DPR, do Inglês Daugther Pregnancy Rate). A DPR é a porcentagem de vacas que se tornam prenhes durante cada período de 21 dias após o período de espera voluntária e é derivada dos registros de período de serviço ou do intervalo do parto à concepção.

Espera-se que as filhas de um touro com a PTA para DPR igual à +1.0 tenham, em média, a concepção quatro dias mais cedo do que a média das filhas de um touro com a PTA para DPR de +0.0 (zero). Na raça Holandesa, o intervalo das PTAs para DPR em touros ativos atualmente no mercado, varia de -6,1 a +4,2, o que significa que existe diferenças maiores do que um mês na concepção das filhas dos touros que estão nos extremos. A h2 para DPR normalmente é abaixo de 0,1. Portanto, ao utilizar touros que se destacam em DPR podemos inserir alelos favoráveis à fertilidade na população e, assim manter progresso genético direcionado à eficiência reprodutiva e menores gastos por concepção.

Vacas com problemas reprodutivos dão prejuízo ao criador por não apresentarem boa produção leiteira, considerando-se sua vida produtiva como um todo, por não produzirem anualmente bezerros para reposição ou venda. Dessa forma, elas se tornam fontes de aumento nos custos e não nas receitas da fazenda.

Em consequência da baixa herdabilidade das características reprodutivas, o aumento nos índices reprodutivos pode ser melhor alcançado se acompanhado de melhorias nas condições de ambiente, sem esquecer da importância da intensidade de seleção. Essas melhorias nas condições de ambiente, estão relacionadas principalmente à alimentação e ao manejo oferecidos aos animais nos primeiros meses de vida, possibilitando desenvolvimento satisfatório nas diversas etapas do seu crescimento.

Características adaptativas  

mastite bovina é uma inflamação da glândula mamária que interfere diretamente na produção leiteira, tanto na quantidade, quanto na qualidade do leite produzido. Essa é uma das maiores causas de descarte involuntário de vacas do rebanho e, pelo fato de ter herdabilidade da ordem de 0,20, é possível sua seleção. A incidência de mastite está positivamente correlacionada ao volume de produção de leite.

Atualmente, o produtor é beneficiado economicamente se os índices de Contagem de Células Somáticas (CCS) e Contagem Bacteriana Total (CBT) na propriedade se mantém baixos. Estes parâmetros podem ser utilizados para avaliar o nível de infecções mamárias e a sanidade das propriedades, respectivamente, auxiliando assim na identificação dos animais infectados a nível de rebanho e individual.

Sabe-se que a seleção de animais geneticamente resistentes à mastite, por meio da avaliação e seleção de animais com bom escore de células somáticas (SCS), pode auxiliar na redução da incidência desta doença, diminuindo os custos do sistema de produção e contribuindo com a longevidade dos animais na propriedade.

Características de tipo ou conformação

Durante muitos anos a seleção de animais por conformação tem sido mais marcante nos julgamentos de exposições agropecuárias. Recentemente, as classificações lineares, feitas pelas associações de raça, em alguns aspectos vêm sendo realizada de forma padronizada. Isso permite que sejam feitas correções de características de conformação que se apresentem debilidade, resultando assim, em ganho genético.

É relevante diferenciar a seleção para conformação, realizada em julgamentos de exposições agropecuárias, daquela que é feita por meio da classificação linear. No julgamento, a seleção é realizada levando-se em consideração um conjunto de características (de conformação raciais e de aparência geral) que o animal apresenta naquele momento. E ao final, é premiado na comparação com outros de idade aproximada à sua. Já a seleção pela classificação linear é baseada estritamente na avaliação individualizada das características, determinadas pela associação de raça como, por exemplo, as de aspecto funcional. Por meio da classificação linear, a associação de raça tem condições de avaliar, coletar dados, armazenar e identificar pontos fortes e fracos de todo o rebanho nacional.

Posteriormente, estes mesmos dados podem também ser utilizados para a seleção de animais mais bem conformados e aquisição de material genético de touros visando o planejamento de acasalamentos corretivos. Desta forma, a classificação linear pode ajudar, juntamente com outras características já comentadas anteriormente, a potencializar a produção e a longevidade, reduzindo a taxa de reposição por descarte involuntário.

É de extrema importância dizer que o desempenho de um animal ou de sua progênie em pistas de julgamento não está diretamente relacionada ao seu valor genético (ou genômico) para produção de leite, por exemplo. Isso quer dizer que vacas de altíssimo valor genético para produção de leite podem ter desempenhos inferiores ao esperado nas exposições, assim como animais com grande número de premiações podem não ser os animais com as melhores colocações na classificação com base nos seus valores genéticos para produção de leite.

As características de conformação são utilizadas na avaliação de matrizes e reprodutores, feito por classificadores homologados pela associação de raça, devidamente treinados e padronizados. A avaliação linear é realizada com base em um sistema de pontuação e agrupando as características em quatro grupos: força leiteira, garupa, pernas e pés, e sistema mamário. Dentre as características de conformação que merecem destaque, podemos citar aquelas que estão agrupadas no sistema mamário. Estas características contribuem para uma boa produção e aumento da vida produtiva da vaca no rebanho, pois estão relacionadas a capacidade de armazenamento do leite e sustentação do sistema mamário de cada vaca.

A seleção para características ligadas a conformação pode ser realizada individualmente ou por meio de um conjunto delas (compostos), com base nas PTAs para conformação (PTAT, do inglês Type), composto de úbere (UDC, do inglês Udder Composite) e composto de pernas e pés (FLC, do inglês Feet and Legs Composite).

PTAT é aquela que reúne todas as características de conformação, normalmente ligadas às pontuações finais das filhas dos reprodutores, ajustadas para a idade dos animais. O UDC engloba todas as características de úbere, além da estatura. Já o FLC é um composto que reúne as características relacionadas aos aprumos posteriores (escore de pernas e pés, pernas vista posterior, ângulo de casco, além da estatura). Estes dois últimos compostos fornecem importantes informações para a seleção de animais com estatura adequada e maior permanência no rebanho.

Todas essas predições (PTAs) são úteis para que os produtores, dentro dos seus rebanhos e de suas particularidades, possam efetuar a seleção dos touros e matrizes, almejando melhoramento genético das características de maior importância econômica especificamente para cada rebanho.

É importante destacar que estes índices são definidos pelos órgãos nacionais ligados ao melhoramento genético, podendo, portanto, sofrer alterações e pesos aplicados para seu cálculo, quando comparados entre diferentes países.

Autores: 
Pamela Itajara Otto1
Darlene Daltro2
João Cláudio do Carmo Panetto3
Fábio Fogaça4
Marcos Vinícius G. Barbosa da Silva3

– Professora na Universidade Federal de Santa Maria – RS
2 – Bolsista de Pós-Doutorado da Associação Brasileira de Criadores de Girolando
3 – Pesquisador da Embrapa Gado de Leite
4 – Gerente de Leite Importado da Alta Genetics

 

Fonte: MilkPoint.

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