Arrisco-me a dizer que a atividade leiteria é aquela cuja interação entre o homem e o animal é a mais íntima quando comparada a outros animais de produção.

Pelo menos duas vezes ao dia, as vacas leiteiras entram em contato direto com o ordenhador e com o tratador na sala de alimentação. Nesse sentido, além da dieta e do conforto térmico, a influência humana nesta interação homem-animal é crucial na manutenção de um ambiente harmônico que promova o bem-estar animal.

Em relação ao comportamento, se a relação entre o tratador e os animais for positiva e de confiança, estes podem associar o humano a uma recompensa, como oferecer alimento, por exemplo.

Por outro lado, interações negativas estão associadas a punições e fazem com que os animais evitem aproximação. Esta reatividade ocorre devido à manutenção de algumas características comportamentais primitivas dos ruminantes, que levam à fuga de situações adversas.

Em um trabalho realizado em Santa Catarina, os pesquisadores compararam a distância de fuga de vacas leiteiras à dois tratadores, um denominado de “neutro” e outro denominado de “aversivo” que por sua vez aplicava dois tapas de cada lado da garupa, e a cada tapa, um grito, no momento da ordenha.

Este manejo foi realizado por 21 dias e depois disso os tratadores foram isolados dos animais por 180 dias. Mesmo após este período, quando os tratadores retornaram, os animais apresentaram maior distância de fuga do tratador aversivo em relação ao neutro. Além disso, os autores verificaram que vacas submetidas a tratamentos agressivos podem defecar até seis vezes mais no momento da ordenha em comparação a animais mantidos em condições neutras (Hötzel et al., 2005).

Essa constatação pode nos suspeitar uma hipótese de retroalimentação, ou seja, tratadores combativos estimulam os animais a defecar mais durante a ordenha, acontecimento que pode alimentar uma aversão dos trabalhadores ao procedimento de ordenha (ou ao trabalho como um todo) e induzir a manutenção de ações indesejáveis.

Até este ponto constatamos que as atividades dos ordenhadores influenciam o bem-estar e o comportamento das vacas, mas qual a relação com a produção?

Com o objetivo de quantificar esta influência, Rosa et al. (2004) avaliaram o efeito da interação do tratador com as vacas leiteiras na condução da sala de espera à sala de ordenha.

As ações de “conversar” e encostar levemente nos animais foram consideradas positivas enquanto as ações de bater, gritar, empurrar e torcer a cauda foram consideradas negativas. Como resultado, os animais conduzidos de forma tranquila produziram cerca de 700 gramas a mais de leite por ordenha em relação aos demais.

Outros autores afirmam que até 20% da variação do rendimento de leite pode ser explicada pelo medo dos animais aos tratadores.

Este manejo agressivo por parte dos envolvidos, seja mão de obra contratada ou familiar, está enraizado em conceitos tradicionais e errados de que o uso de objetos e gritos com os animais acelera o manejo.

Em oposição, trabalhadores contentes com o ofício tendem a ter um relacionamento melhor com as vacas e consequentemente melhores índices produtivos, quando comparados aos índices de fazendas com manejo adverso ou com grande fluxo de funcionários.

Além de produção de leite, a “harmonia” da interação decorre em outros efeitos, como a saúde do úbere, por exemplo. Interações positivas podem promover menor contagem de células somáticas do leite enquanto interações agressivas podem aumentar a ocorrência de processos infecciosos, como por exemplo a mastite, além disso, a mera presença de um desconhecido no momento da ordenha é capaz de aumentar o leite residual pós ordenha, e com isso favorecer a ocorrência de mastite (Rushen et al., 1999).

Para finalizar, estas informações nos permitem refletir de que a manutenção da produtividade de sistemas de produção de leite passa impreterivelmente pelo estabelecimento de relações positivas entre o homem e os animais, que vão além da oferta de conforto térmico e alimentação de qualidade.

Alcançar este status exige qualificação profissional e reconhecimento da importância (e monetário) da função de tratador/ordenhador, pois sua influência pode ser determinante na lucratividade de uma propriedade.

Fonte: MilkPoint.

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