A eficiência do manejo nutricional, reprodutivo e sanitário das vacas leiteiras se faz necessário, uma vez que se pode minimizar as consequências das principais enfermidades decorrentes do período de transição, compreendido no intervalo de três semanas antes e três semanas após o parto. Sendo esse período um dos momentos de maior vulnerabilidade para as fêmeas, devido às intensas alterações fisiológicas, metabólicas e endócrinas (ORTOLANI, 2009).
Durante as fases de pré-parto, pós-parto, início da lactação e retorno à ciclicidade, vários hormônios têm suas concentrações alteradas para desencadear diferentes mecanismos fisiológicos no organismo da fêmea. Mesmo quando fisiológicas, as alterações que ocorrem no período periparto tornam a vaca mais suscetível a infecções, comprometendo tanto o bem-estar quanto a produtividade do animal (ORTOLANI, 2009; CARVALHO et al., 2019; CAMPOS e SANTOS, 2021).
Vacas leiteiras submetidas a sistemas intensivos de produção, estão mais suscetíveis a desenvolver doenças no pós-parto, uma vez que a exigência produtiva e reprodutiva é maior. Além disso, também possuem uma maior exigência nutricional e hormonal, estando ainda mais propensas ao estresse metabólico. No puerpério as vacas enfrentam um aumento significativo na demanda energética e uma redução na ingestão de matéria seca, o que pode levar ao balanço energético negativo (BEN). Esse desequilíbrio favorece o aparecimento de enfermidades metabólicas e reprodutivas (CARVALHO et al., 2019; SHELDON et al., 2019).
PRINCIPAIS ENFERMIDADES PUERPERAIS
As principais patologias que estão relacionadas ao período de transição são de origem metabólica (hipocalcemia; cetose; esteatose hepática e deslocamento de abomaso) e ou reprodutiva (retenção de placenta e endometrite). A junção das enfermidades pode causar a toxemia puerperal (ORTOLANI, 2009; SANTOS et al., 2010; CAMPOS e SANTOS, 2021).
Dentre as doenças metabólicas observadas no período de transição, destaca-se a hipocalcemia, considerada uma das primeiras enfermidades a se manifestar logo após o parto. Também conhecida como febre do leite, ela é comum em vacas de alta produção nas primeiras 24 horas após o parto, sendo resultante da súbita mobilização de cálcio do organismo da vaca para suprir as demandas do colostro e leite. Os principais sinais clínicos incluem tremores musculares, fraqueza, atonia ruminal, hipotermia e decúbito prolongado. Na forma subclínica da doença, não é possível identificar claramente os sinais, mas há uma redução na ingestão de matéria seca e queda considerável na produção de leite, além disso predispõe o animal ao aparecimento de outras doenças (GOFF, 2008).
A cetose é uma das principais enfermidades metabólicas do início da lactação e ocorre devido ao balanço energético negativo, ou seja, a vaca gasta mais energia para produzir leite do que consegue repor pela alimentação. Nessa fase, o organismo passa a utilizar a gordura corporal como fonte de energia, o que leva ao acúmulo de corpos cetônicos na corrente sanguínea. Os sinais clínicos mais comuns são: apatia, falta de apetite, queda na produção de leite e odor característico de acetona exalado na respiração. Esse processo de mobilização intensa de gordura também está diretamente ligado ao desenvolvimento da esteatose hepática, caracterizada pelo acúmulo de lipídios nos hepatócitos, decorrente da intensa mobilização de ácidos graxos durante o pós-parto; com isso, o fígado acumula gordura em excesso e tem sua função comprometida. Então, o metabolismo do animal fica ainda mais sobrecarregado, agravando o quadro de cetose e prejudicando a recuperação do animal. A cetose e a esteatose hepática estão interligadas e como consequência, essas enfermidades podem reduzir o desempenho produtivo do animal e aumentar o risco de outros distúrbios, como o deslocamento de abomaso e a retenção de placenta (RADOSTITS et al., 2010; ORTOLANI, 2009; DELAMURA; FUKUMOTO, 2020).
O deslocamento de abomaso é frequente em vacas de alta produção durante o início da lactação e está associado as principais enfermidades decorrentes do pós-parto. A baixa ingestão de matéria seca provoca à atonia abomasal o que gera acúmulo de gás, fazendo com que o abomaso se mova da sua posição anatômica. Clinicamente, é possível observar redução na produção de leite, anorexia, som metálico (“ping”) característico ao percutir a área deslocada, dor abdominal, taquicardia e desidratação (LEBLANC, 2008).
Além das enfermidades metabólicas, o período do pós-parto também é marcado por alterações reprodutivas importantes, como por exemplo a retenção de placenta, que frequentemente ocorre em animais com distúrbios metabólicos prévios. A retenção de placenta é definida pela não expulsão das membranas fetais em até 24 horas após o parto, e frequentemente está associada a partos distócicos e distúrbios metabólicos, como a hipocalcemia. Os sinais clínicos incluem, presença de restos placentários e secreção fétida. Essa condição predispõe à endometrite aguda e crônica (SHELDON et al., 2008; LEBLANC, 2008).
A endometrite aguda é caracterizada pela infecção do útero e suas camadas: endométrio (mucosa), miométrio (muscular) e perimétrio (serosa). A doença se manifesta em poucos dias após o parto, normalmente decorrente da retenção de placenta e apresenta como característica o útero aumentado de volume, com a presença de secreção fétida, vermelho acastanhada e purulenta (SHELDON et al., 2008). A vaca pode apresentar febre, anorexia, apatia e redução na produção de leite (SHELDON et al., 2019).
Quando não resolvida adequadamente, a endometrite aguda pode evoluir para endometrite crônica, comprometendo a involução e regeneração uterina além do retorno a fertilidade. A endometrite é uma inflamação do endométrio que se manifesta geralmente 21 dias após o parto, caracterizada por infecção e descarga uterina purulenta e fétida, porém sem sinais sistêmicos marcantes. Essa enfermidade interfere na concepção e prolonga o intervalo entre partos, comprometendo a eficiência reprodutiva (SHELDON et al., 2008).
Dessa forma, observa-se que as doenças metabólicas e reprodutivas do período de transição estão inter-relacionadas e geram uma cascata de distúrbios que afetam a saúde, a fertilidade e a produtividade das vacas leiteiras. É fato que, toda resposta inflamatória no organismo provoca efeitos negativos e deletérios na retomada aos ciclos reprodutivos. Então, as enfermidades decorrentes do pós-parto causam muitos prejuízos econômicos, pois, impactam diretamente nos índices de produtividade das fêmeas bovinas (SHELDON et al., 2008; CAMPOS e SANTOS, 2021).
IMPACTOS PRODUTIVOS E ECONÔMICOS
Os prejuízos associados às doenças do pós-parto vão muito além dos custos com tratamento. Elas resultam no descarte prolongado de leite e podem causar uma redução permanente na produção leiteira (SHELDON et al., 2008). Estudos indicam que até 60% das vacas em lactação podem desenvolver doenças metabólicas ou infecciosas durante os primeiros 60 dias de lactação, período crítico para a saúde e produtividade do animal (EDUCAPOINT, 2021). Por exemplo, vacas que apresentam retenção de placenta produzem, em média, 355 kg a menos de leite nos primeiros 60 dias pós-parto, o que pode representar perdas significativas para a propriedade (NOBRE et al., 2018).
Além disso, enfermidades como a mastite podem resultar em perdas de até 450 kg de leite por caso clínico, sendo que cerca de 90% desse prejuízo está relacionado à redução na produção e ao descarte do leite (SANTOS, 2012). Dessa forma, compromete a saúde, o bem-estar, a produtividade e a fertilidade nos rebanhos bovinos. Outrossim, como já citado, o pós-parto é marcado pelo estresse metabólico e infecções adquiridas, ocorrendo interferência na secreção e ação dos hormônios ligados ao retorno à ciclicidade (SHELDON et al., 2019).
O aumento das enfermidades puerperais está diretamente relacionado com a redução do escore corporal em vacas leiteiras antes e após o parto. O aconselhável é manter a vaca com o escore corporal (ECC) considerado ideal, ou seja, nem muito gorda e nem muito magra (ECC 3,25), dessa forma é possível alcançar bons índices reprodutivos e produtivos ao longo de toda a lactação. Durante a fase de transição a vaca tem uma grande demanda energética para suprir todos os gastos de energia à que está sendo exposta. Quando ocorre um desequilíbrio entre a necessidade e o gasto energético, então pode ocorrer um balanço energético negativo (BEN), ocasionando distúrbios de origem metabólica (CARVALHO et al., 2019; SHELDON et al., 2019).
As doenças puerperais representam um dos principais desafios sanitários e econômicos da bovinocultura leiteira. A combinação de fatores nutricionais, metabólicos e imunológicos tornam as vacas altamente suscetíveis a doenças, comprometendo a produção e a fertilidade. A implementação de manejo nutricional adequado, controle sanitário rigoroso e promoção do bem-estar animal, é essencial para reduzir perdas e garantir a sustentabilidade da atividade leiteira. E pensando nisso, a JA Saúde Animal apresenta alguns protocolos de tratamento das principais enfermidades decorrentes do pós-parto, pensados para auxiliar no dia a dia do produtor.


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TEXTO: ALINE M. CARVALHO – MÉDICA VETERINÁRIA
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REFERÊNCIAS
CAMPOS, C. C.; SANTOS, R. M. DOS. Doenças do pós-parto e seus efeitos sobre a eficiência reprodutiva de vacas leiteiras. Rev Bras Reprod Anim v. 45. n. 4. p.160-167, 2021.
CARVALHO M.R.; PEÑAGARICANO F.; SANTOS J. E. P.; DE VRIES T. J.; MCBRIDE B. W. Long-term effects of postpartum clinical disease on milk production, reproduction, and culling of dairy cows. J Dairy Sci, v.102, n.12, p.11701-11717, 2019.
DELAMURA, B. B.; DE SOUZA, V. J. T.; FUKUMOTO, N. M. Aspectos clínicos, epidemiológicos, diagnóstico, tratamento e prevenção da cetose em vacas leiteiras:Revisão. Pubvet, v. 14, p. 148, 2020.
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GOFF, J. P. The Monitoring, Prevention, And Treatment Of Milk Fever And Subclinical Hypocalcemia In Dairy Cows. The Veterinary Journal, 176, n. 1, p. 50–57. 2008.
LEBLANC S. J. Postpartum uterine disease and dairy herd reproductive performance: a review. The Vet J, v.176, p.102-114, 2008.
NOBRE, C. A. et al. Retenção de placenta em bovinos de leite: uma revisão. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro, v. 9, 2024. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/384624403_RETENCAO_DE_PLACENTA_EM_BOVINOS_DE_LEITE_UMA_REVISAO. Acesso em: 20 maio 2025.
ORTOLANI, E. L. Enfermidades do período de transição. Ciência Animal Brasileira/Brazilian Animal Science. 2009.
RADOSTITS, O. M., GAY, C. C., BLOOD, D. C., HINCHCLIFF, K. W., MCKENZIE, R. A. Clínica Veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e eqüinos (Vol. 1). Guanabara Koogan. 2010.
SANTOS, J. E. P., R. S. BISINOTTO, E. S. RIBEIRO, F. S. LIMA, L. F. GRECO, C. R. STAPLES, W. W. THATCHER, M. F. SMITH, M. C. LUCY, AND J. L. PATE. Applying nutrition and physiology to improve reproduction in dairy cattle. Soc Reprod Fert, v.67, p.387-403, 2010.
SANTOS, M. V. Impacto econômico da mastite – Parte 2/2. MilkPoint, 2012. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/impacto-economico-da-mastite-parte-22-16202/. Acesso em: 20 maio 2025.
SHELDON I. M.; WILLIAMS E. J.; MILLER ANA.; NASH DM.; HERATH S. Uterine diseases in cattle after parturition. Vet Journal, v.176, n.1-3, p.115-121, 2008.
SHELDON I.M.; CRONIN J.G.; BROMFIELD J.J. Tolerance and innate immunity shape the development of postpartum uterine disease and the impact of endometritis in dairy cattle. Annual Rev Anim Bioscie, v.15, n.7, p.361-384, 2019.
