Ectoparasitos em bovinos: uma abordagem geral

O crescimento contínuo da população mundial, aliado ao aumento do poder de compra em países em desenvolvimento, tem ampliado de forma expressiva a demanda global por alimentos de origem animal. Projeções indicam que a população poderá atingir 9,7 bilhões de pessoas em 2050, o que representa um possível aumento de cerca de 43% no consumo de proteína animal, mantidos os padrões atuais. No Brasil, a bovinocultura de corte acompanha essa tendência por meio de avanços em manejo, nutrição, genética e sanidade, consolidando-se como uma das principais atividades pecuárias do mundo. Porém, as condições climáticas intertropicais do Brasil favorecem a multiplicação e a persistência de diversos ectoparasitos, que permanecem entre os principais fatores limitantes da produtividade e da rentabilidade na bovinocultura (GOMES et al., 2017; HENCHION et al., 2022; ABIEC, 2023).

Essas infestações estão frequentemente associadas a lesões cutâneas, espoliações sanguíneas e transmissão de patógenos, podendo reduzir o ganho de peso em até 20%, além de comprometer o bem-estar e a capacidade produtiva dos animais. Em quadros mais severos, o parasitismo intenso desencadeia enfraquecimento progressivo, prostração e risco de mortalidade. Diante desses impactos, o controle estratégico de ectoparasitos torna-se indispensável para manter a eficiência sanitária e econômica dos rebanhos, demandando protocolos bem estruturados e condizentes com a realidade de cada sistema de produção (SAUERESSIG, 2006).

Entre os ectoparasitas de maior relevância destacam-se o Rhipicephalus (Boophilus) microplus (carrapato-do-boi), a Dermatobia hominis (mosca-do-berne), a Haematobia irritans (mosca-dos-chifres) e por fim a Stomoxys calcitrans (mosca-dos-estábulos). Esses organismos, apesar do pequeno tamanho, provocam irritação constante, dermatites, redução do apetite, queda no ganho de peso, menor produção leiteira e maior predisposição a infecções secundárias (SAUERESSIG, 2006).

Conhecendo os principais ectoparasitos

Considerado um dos principais responsáveis pelas perdas econômicas na pecuária, o Rhipicephalus (Boophilus) microplus, conhecido como carrapato-do-boi, é uma espécie que acomete principalmente os bovinos. Sendo altamente adaptado às condições tropicais, esse ectoparasita exerce impacto direto sobre o desempenho dos animais devido ao seu hábito hematófago e à capacidade de provocar intenso estresse fisiológico. Estima-se que cada fêmea adulta seja capaz de reduzir cerca de 9 mL de leite e 1,4 g de ganho de peso diário. Além das perdas produtivas, o carrapato atua como vetor da Tristeza Parasitária Bovina (Babesia spp. e Anaplasma marginale), além de favorecer dermatites e miíases em decorrência das lesões cutâneas (EMBRAPA, 2005; GRISI et al., 2014).

Dentre os agentes de maior impacto, a mosca-dos-chifres (Haematobia irritans) destaca-se pela alta prevalência e capacidade de permanecer no hospedeiro durante a maior parte do seu ciclo de vida, realizando múltiplos repastos sanguíneos (ato de o parasita ingerir sangue do hospedeiro). Esses repastos resultam em dor, irritação, perda do apetite e aumento do gasto energético, ocasionando reduções significativas no ganho de peso e na produção leiteira. Estimativas apontam prejuízos globais superiores a US$ 3,2 bilhões por ano devido às infestações pela mosca-dos-chifres (EMBRAPA, 2005; BARROS et al., 2015). Sua capacidade de picar o animal repetidas vezes ao longo do dia acentua o estresse comportamental, devido a picada dolorosa (BRITO et al., 2005).

Outro ectoparasito de grande relevância é o berne, causado pela larva de Dermatobia hominis, apresenta elevada incidência em regiões tropicais. As larvas instalam-se no tecido subcutâneo sem necessidade de ferida prévia, desenvolvendo-se às custas dos tecidos do hospedeiro. As lesões resultantes reduzem o ganho de peso, comprometem a produtividade leiteira, depreciam o valor do couro e aumentam o risco de infecções secundárias (SAUERESSIG, 2006; FARIAS et al., 2019).

Outro desafio sanitário relevante é a miíase, também conhecida como bicheira, provocada pela Cochliomyia hominivorax, caracteriza-se pela infestação de feridas abertas por larvas que consomem rapidamente tecidos vivos, produzindo cavitações profundas. Além do dano direto, o odor das feridas atrai novas moscas, perpetuando o ciclo infestativo e dificultando o processo de cicatrização. Infestações graves podem levar à perda acentuada de condição corporal, redução da produtividade, além do risco de septicemia (FURLONG, 2005; STEVENS et al., 2014).

Por fim, a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) constitui outro ectoparasito de grande relevância, especialmente em sistemas intensivos e semi-intensivos. A espécie realiza picadas dolorosas, e com isso reduz significativamente o tempo de pastejo, além de reduzir o consumo voluntário de matéria seca, levando à queda no ganho de peso e na eficiência alimentar. Em altas infestações, os bovinos podem perder até 0,3 kg/dia devido ao estresse e à alteração comportamental (HOGSETTE; WISEMAN, 1993). Além disso, a mosca-dos-estábulos atua como vetor mecânico de patógenos, contribuindo para casos de mastite ambiental e outras enfermidades, reforçando a necessidade do manejo integrado (CORNELIUS; WRIGHT; KIMBROUGH, 1991; TAYLOR; COOP; WALL, 2016).

Controle

Nos últimos anos, avanços significativos foram alcançados no desenvolvimento de formulações destinadas ao controle dos principais ectoparasitos. De modo geral, os ectoparasiticidas modernos apresentam amplo espectro de ação, atuando de forma eficaz contra carrapatos, larvas de moscas e bernes, além de oferecerem maior praticidade na aplicação. Diante desses avanços tecnológicos, torna-se ainda mais importante que o manejo sanitário nas propriedades seja planejado de forma estratégica.

O controle de ectoparasitos deve ser planejado de forma estratégica ao longo do ano, sendo mais eficiente quando iniciado antes do período chuvoso, momento em que temperatura e umidade aumentam e criam condições altamente favoráveis à proliferação de carrapatos e moscas. Durante essa fase, os ciclos biológicos desses parasitas se aceleram, elevando a sobrevivência das larvas, a taxa de reprodução e a intensidade das infestações, especialmente dos ectoparasitas Rhipicephalus microplus, Haematobia irritans e Stomoxys calcitrans. Ao antecipar as medidas de controle, reduz-se a população inicial e interrompem-se fases críticas do ciclo, prevenindo explosões populacionais no pico das chuvas e diminuindo perdas produtivas, riscos sanitários e a necessidade de intervenções curativas mais frequentes. (PEREIRA et al., 2008).

Nesse contexto de escolha adequada dos produtos, recomenda-se a utilização de princípios ativos modernos, como Fipronil e Fluazuron, que apresentam amplo espectro de ação e permitem maior eficiência operacional devido à facilidade de aplicação, reduzindo o tempo de manejo e a necessidade de mão de obra (PEREIRA et al., 2008).

Acompanhando essa evolução, a JA Saúde Animal apresenta o Duplatak, um ectoparasiticida pour-on que combina Fipronil e Fluazuron para oferecer proteção prolongada e alto desempenho no controle dos principais parasitos externos dos bovinos. O Fipronil é uma molécula do grupo dos fenilpirazóis, que tem como característica atuar bloqueando os canais de cloro controlados pelo GABA, ocasionado paralisia espástica, morte e eliminação do parasita. Já o Fluazuron, faz parte do grupo das Benzoilfenilureias e atua interferindo na formação de quitina do carrapato, interrompendo seu ciclo de vida e desenvolvimento. Em suma, a combinação dessas moléculas torna o Duplatak altamente eficaz no controle e combate dos principais ectoparasitas.

O modo de uso do Duplatak é através da via de administração Pour On, na dose de 10 mL para cada 100 kg de peso corporal, equivalente a 2,5 mg/kg de Fluazuron e 1,0 mg/kg de Fipronil. O intervalo médio entre as aplicações é de 45 dias.

Para mais informações sobre esse e outros produtos da JA Saúde Animal, entre em contato conosco e fale com um médico veterinário!

TEXTO: ALINE M. CARVALHO – MÉDICA VETERINÁRIA

REFERÊNCIAS

(ABIEC, 2023) Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes – 518 ABIEC. Perfil na Pecuária no Brasil. Capítulo 2. Beef Report. São Pauso/SP, 519 2023.

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